Padroeira une Brasil desigual e reação popular mostra resistência à interferência política na fé

Nossa Senhora Aparecida, celebrada nesta segunda-feira (12), é uma das principais referências religiosas de um país que ainda convive com profundas desigualdades sociais e raciais. Sua história começou em 1717, quando três pescadores encontraram uma pequena imagem de Maria nas águas do rio Paraíba do Sul, no interior de São Paulo.

O Brasil era uma colônia portuguesa, a escravidão sustentava parte fundamental da economia e a população negra estava submetida à violência e à privação de direitos. Foi nessa sociedade que uma imagem escura da mãe de Jesus começou a conquistar a devoção popular.

Mais de três séculos depois, a padroeira voltou a provocar uma forte mobilização nacional. Em setembro, a repercussão de um antigo projeto de lei que pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil provocou indignação nas redes sociais e atingiu a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL). O autor da proposta, o ex-deputado federal Victorio Galli, foi assessor especial da Presidência da República durante o governo de Jair Bolsonaro.

O Projeto de Lei 2623/2007, apresentado por Galli quando ele integrava o então PMDB, pretendia substituir na legislação federal a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. A justificativa era a laicidade do Estado brasileiro e o respeito à diversidade religiosa. A iniciativa foi rejeitada e arquivada em agosto de 2008, mas voltou a circular durante a campanha eleitoral deste ano.

Segundo levantamento da Palver divulgado pelo UOL em 25 de setembro, as referências ao tema saltaram de uma média de aproximadamente 40 para 735 menções a cada 100 mil mensagens nas redes sociais em menos de 24 horas.

Entre as publicações analisadas, 73% eram críticas a Flávio Bolsonaro. Nos grupos públicos de WhatsApp e Telegram, o índice chegou a 60%. A pesquisa mediu a repercussão digital e não representa uma pesquisa de opinião do conjunto da população.

A intensidade da reação mostrou o peso que Nossa Senhora Aparecida conserva na identidade religiosa brasileira. A proposta havia sido arquivada 18 anos antes, mas a possibilidade de modificar o reconhecimento nacional da padroeira foi suficiente para provocar uma mobilização expressiva.

Uma santa negra no Brasil escravista

Segundo a tradição católica, a imagem foi encontrada em outubro de 1717 pelos pescadores Domingos Garcia, Filipe Pedroso e João Alves, nas proximidades de Guaratinguetá. Primeiro apareceu o corpo de uma pequena escultura de Nossa Senhora da Conceição. Depois, a cabeça. O relato religioso conta que, após o encontro, os pescadores conseguiram uma grande quantidade de peixes, fato interpretado como o primeiro milagre de Nossa Senhora Aparecida.

A imagem, feita de terracota e com cerca de 36 centímetros, provavelmente não possuía originalmente a coloração escura que apresenta hoje. Estudos históricos indicam que a permanência na água, o desgaste da pintura e a exposição à fuligem de velas e candeeiros podem ter contribuído para a mudança de sua aparência.

Independentemente da origem dessa coloração, Nossa Senhora Aparecida passou a ser reconhecida como uma representação negra de Maria, adquirindo um significado especial em uma sociedade formada sob a escravidão.

A devoção surgiu entre moradores da região e se desenvolveu inicialmente em ambientes domésticos. Famílias reuniam-se para rezar diante da imagem, e os relatos de graças e milagres contribuíram para aumentar sua popularidade. Em 1745, foi inaugurada uma capela dedicada à santa, dando início à formação de um importante destino de peregrinação religiosa.

Naquele momento, a escravidão ainda duraria quase um século e meio. Milhões de africanos e seus descendentes seriam submetidos ao trabalho forçado no Brasil, enquanto a população negra livre também enfrentava restrições sociais e econômicas.

A presença de uma Nossa Senhora negra entre as principais devoções de uma sociedade escravista expõe uma das contradições da formação brasileira. A veneração religiosa de uma imagem escura convivia com a exploração e a desumanização de pessoas negras.

A própria Igreja Católica mantinha relações com a estrutura colonial e escravista. Ordens religiosas e integrantes do clero possuíam pessoas escravizadas, enquanto outros religiosos criticavam abusos e defendiam medidas de proteção. Para africanos e seus descendentes, o catolicismo também ofereceu espaços de organização comunitária e manifestação cultural, especialmente nas irmandades negras.

Com o passar dos séculos, a imagem de Aparecida adquiriu significados relacionados à proteção dos pobres e à identificação com a população negra. O historiador Luiz Antonio Simas, autor do livro Tantas Marias, destaca sua associação à figura da mãe preta e à religiosidade popular brasileira. A devoção também se incorporou a manifestações culturais que ultrapassaram os limites das igrejas, alcançando a música, o futebol e diferentes tradições regionais.

O reconhecimento oficial como Padroeira do Brasil aconteceu somente em 1930, quando o papa Pio XI assinou o decreto solicitado pelo episcopado brasileiro. Haviam se passado 213 anos desde o encontro da imagem e 42 anos desde a abolição da escravidão.

A proclamação solene foi realizada em 31 de maio de 1931, no Rio de Janeiro, então capital federal, reunindo cerca de um milhão de pessoas. A cerimônia ocorreu durante o primeiro governo de Getúlio Vargas, período de aproximação política entre o Estado brasileiro e a hierarquia católica.

O feriado nacional de 12 de outubro foi instituído em 1980, pela Lei 6.802, consolidando no calendário brasileiro uma celebração que já mobilizava milhões de fiéis.

Fé e política

O projeto de Victorio Galli questionava justamente o reconhecimento da padroeira pela legislação brasileira. Em sua justificativa, o então deputado argumentava que um Estado laico não deveria adotar uma figura religiosa como padroeira de toda a população, considerando a existência de brasileiros de diferentes crenças.

A distinção entre o reconhecimento civil e o religioso é importante. Nossa Senhora Aparecida recebeu o título de Padroeira do Brasil por decisão da Igreja Católica, em 1930. Uma alteração da legislação nacional não teria autoridade para revogar o decreto papal, embora pudesse retirar a referência à padroeira das normas brasileiras.

Galli também tem uma trajetória política que explica a repercussão de seu projeto em 2026. Depois de integrar o PMDB, aproximou-se do bolsonarismo e foi nomeado assessor especial da Presidência da República em 2019. Acabou exonerado após uma condenação judicial por manifestações preconceituosas.

A associação da proposta a Flávio Bolsonaro surgiu depois que uma comentarista da GloboNews mencionou uma suposta mobilização de setores evangélicos para retirar o título de Nossa Senhora Aparecida

A discussão também mobilizou lideranças religiosas preocupadas com a utilização eleitoral da fé. O arcebispo de Aparecida, dom Mário Antônio da Silva, pediu que as celebrações da padroeira fossem preservadas de disputas partidárias e manifestações de hostilidade. Em entrevista publicada às vésperas do feriado, afirmou que o Santuário Nacional deveria ser um espaço de acolhimento, respeito e fraternidade.

Neste domingo (11), durante o Círio de Nazaré, em Belém, a cantora Fafá de Belém também fez uma referência à controvérsia. “Que Nossa Senhora nunca seja afastada de nós, nem por decreto”, declarou. A fala foi interpretada como uma crítica à possibilidade de interferência política no reconhecimento da devoção mariana.

A padroeira de um país desigual

O Brasil no qual Nossa Senhora Aparecida foi encontrada é muito diferente daquele que celebra seu dia em 2026. A escravidão foi abolida, o país tornou-se uma República e a Constituição assegurou a liberdade de crença e a separação entre Estado e instituições religiosas.

A composição religiosa da população também mudou. Segundo o Censo de 2022, os católicos representam 56,7% dos brasileiros, enquanto os evangélicos correspondem a 26,9%. O crescimento de outras denominações e o aumento da população sem religião tornaram o país mais diverso, embora o catolicismo permaneça como a maior confissão religiosa nacional.

A devoção a Nossa Senhora Aparecida conserva, entretanto, uma presença particularmente forte entre as camadas populares. Sua imagem pode ser encontrada em pequenas residências, estabelecimentos comerciais, veículos, comunidades rurais e bairros periféricos. O Santuário Nacional, no interior paulista, recebe anualmente milhões de peregrinos de diferentes regiões do país.

A poucos dias da celebração de 2026, milhares de romeiros percorreram a rodovia Presidente Dutra em direção a Aparecida, muitos deles a pé, carregando imagens, terços e bandeiras. As peregrinações reúnem pessoas de diferentes idades e condições sociais, movidas por promessas, agradecimentos e tradições familiares.

Essa dimensão popular ajuda a compreender a repercussão da controvérsia eleitoral. A padroeira foi reconhecida oficialmente pela Igreja em 1930, mas sua devoção havia sido construída durante gerações, inicialmente por comunidades do interior paulista e posteriormente por fiéis de todo o Brasil.

A reação nas redes em setembro demonstrou que modificar o reconhecimento de Nossa Senhora Aparecida continua sendo uma questão politicamente sensível. O episódio também expôs como uma informação falsa pode produzir efeitos eleitorais relevantes quando associada a conflitos religiosos já existentes.

No Brasil de 2026, a imagem encontrada por pescadores pobres há 309 anos continua a ocupar um lugar singular na cultura nacional. Sua história reúne a religiosidade popular, as contradições da escravidão, a identificação com a população negra e a relação entre Igreja e Estado. A recente polêmica mostrou que o reconhecimento da padroeira permanece importante para milhões de brasileiros, mesmo em uma sociedade religiosa e politicamente dividida.

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