Encurralado, Flávio Bolsonaro muda discurso sobre escala 6×1, proposta de Lula que beneficia 1 milhão de paranaenses

Depois de criticar o fim da escala 6×1 e defender um modelo alternativo de contratação, o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) mudou de posição nesta terça-feira (13) e anunciou que votará a favor da proposta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A mudança ocorre após pressão de trabalhadores e às vésperas da votação no Senado. No Paraná, mais de 1 milhão de trabalhadores poderiam ganhar um dia a mais de descanso por semana com a medida, sem redução salarial.

Segundo levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), 1.032.927 trabalhadores do Paraná cumprem atualmente a escala 6×1, na qual trabalham seis dias para descansar apenas um. Eles representam 35,82% dos trabalhadores identificados no estudo. Outros 1,85 milhão já trabalham no regime de cinco dias de serviço e dois de descanso.

A proposta defendida por Lula reduz de 44 para 40 horas o limite da jornada semanal, assegura dois dias de descanso remunerado e proíbe a redução dos salários. No Paraná, a diminuição da carga horária beneficiaria um contingente ainda maior: cerca de 2,52 milhões de trabalhadores, especialmente nos setores de comércio, serviços, indústria e logística.

Na prática, a mudança permitiria que trabalhadores que hoje têm apenas um dia livre por semana passassem a contar com dois, sem perder parte da remuneração. Seria mais tempo para ficar com os filhos, cuidar da saúde, estudar ou simplesmente descansar.

Flávio muda discurso após cobranças de Lula

Até a semana passada, Flávio Bolsonaro criticava a proposta de acabar com a escala 6×1 e defendia uma alternativa que classificava como “infinitamente melhor”. O modelo, apresentado pelo senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador de sua campanha presidencial, prevê contratos com pagamento proporcional às horas trabalhadas e maior liberdade de negociação entre patrões e empregados.

Marinho também vinha atuando para adiar a votação da proposta no Senado. Na semana passada, afirmou que discutir o fim da escala 6×1 neste momento “não faz bem para o país”. A PEC, apresentada por parlamentares de esquerda, está prevista para ser votada em primeiro turno nesta quarta-feira (14).

Flávio, por sua vez, vinha sendo cobrado publicamente por Lula a esclarecer sua posição. Nesta terça-feira, após visitar o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que está em prisão domiciliar, o candidato do PL anunciou que votará a favor da mudança.

“Eu estou rodando o Brasil. A maioria dos trabalhadores quer o fim da 6×1. Vou votar a favor do fim da 6×1, mas a gente defende algo ainda melhor, sempre”, declarou.

Apesar da mudança de posição, Flávio continuou defendendo a flexibilização das jornadas e a negociação individual entre empregadores e empregados. A alternativa apresentada por Rogério Marinho mantém o limite de 44 horas semanais e não assegura a redução geral para 40 horas nem dois dias de descanso remunerado.

A proposta também prevê a prevalência de contratos individuais sobre instrumentos de negociação coletiva, dispositivo que, segundo críticos, poderia enfraquecer a atuação dos sindicatos na definição das condições de trabalho.

Trabalhar menos não significa ser proibido de ganhar mais

Um dos principais argumentos utilizados por Flávio Bolsonaro para defender seu modelo alternativo é o da liberdade de escolha. Mas a redução da jornada para 40 horas não significa que o trabalhador ficaria proibido de realizar horas extras.

A legislação brasileira permite trabalho extraordinário, observados os limites e as condições legais, com remuneração adicional. A diferença central entre as propostas está na garantia de uma jornada normal menor, sem diminuição do salário.

Pelo projeto defendido pelo governo Lula, o trabalhador teria direito a dois dias de descanso por semana e continuaria podendo realizar horas extras dentro das regras trabalhistas. Já a alternativa apresentada por Rogério Marinho prevê maior flexibilidade na contratação e remuneração vinculada às horas efetivamente trabalhadas.

Embora agora declare apoio ao fim da escala 6×1, Flávio Bolsonaro não anunciou a retirada de apoio à proposta alternativa apresentada pelo coordenador de sua campanha. A mudança de discurso, portanto, ainda deixa em aberto quais regras de jornada e remuneração o candidato pretende efetivamente defender.

Para os mais de 1 milhão de paranaenses que hoje cumprem a escala 6×1, a discussão envolve uma mudança concreta na rotina. É a possibilidade de passar mais tempo com a família, reduzir o desgaste de jornadas prolongadas e ter um segundo dia livre sem redução salarial.

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