Rafael Greca supera, mais uma vez, sua criatura

Eduardo Pimentel deve sua carreira política, em grande medida, a Rafael Greca. Foi seu vice-prefeito durante oito anos e chegou à prefeitura graças à popularidade de um administrador que encerrou o mandato com índices elevados de aprovação. Sem Greca, dificilmente teria sido eleito prefeito de Curitiba.

Mas não foi só do padrinho político que Eduardo precisou para se eleger. No segundo turno de 2024, diante de Cristina Graeml, candidata identificada com a extrema direita, recebeu os votos de milhares de eleitores progressistas que decidiram apoiá-lo para impedir uma vitória bolsonarista na capital. Foi uma escolha difícil para muita gente, inclusive para pessoas que conheço e que hoje não escondem o arrependimento.

Dois anos depois, Eduardo Pimentel declara apoio a Flávio Bolsonaro. Justamente à família política que aqueles eleitores tentaram impedir de conquistar a prefeitura.

Se Greca, traído diversas vezes pelo grupo de Ratinho Jr., ainda tivesse alguma influência sobre seu ex-pupilo, possivelmente diria: “Você pare já com isso”.

Mas não tem e a ingratidão eleitoral combina com o governo que Pimentel vem fazendo. Sua gestão acumula conflitos com servidores públicos, adota medidas que penalizam a população mais pobre e demonstra uma hostilidade particular à vida popular de Curitiba. Dos ataques aos direitos dos trabalhadores às restrições impostas a bares e estabelecimentos tradicionais, Pimentel governa como se a cidade fosse propriedade de uma elite incomodada com a presença dos demais.

Talvez seja difícil esperar outra coisa de alguém nascido em berço de ouro, herdeiro de uma família tradicional da política paranaense e que nunca precisou enfrentar as dificuldades materiais de quem depende de serviços públicos, transporte coletivo e salário no fim do mês.

O alinhamento de Eduardo ao bolsonarismo também ajuda a situá-lo no grupo político que governa o Paraná.

É a República do Master, que tem em Ratinho Junior uma de suas principais figuras políticas e cujas conexões empresariais merecem ser examinadas com rigor. O Ratão, pai do governador, aparece na propaganda eleitoral de Flávio Bolsonaro, enquanto o próprio Ratinho Junior declara apoio ao candidato. Todos, de alguma maneira, enrolados com o Master e o Daniel Vorcaro.

O prefeito de Curitiba completa o quadro. Há relações que não podem ser ignoradas. Daniel Pimentel, irmão de Eduardo, já ocupava a presidência da Copel durante o processo que resultou na venda da Copel Telecom ao fundo ligado ao empresário Nelson Tanure. O nome de Tanure aparece nas investigações sobre o Banco Master, de Daniel Vorcaro, inclusive em suspeitas sobre sua participação oculta no controle da instituição.

A privatização da Copel, promovida por Ratinho Junior, tornou-se motivo de principal insatisfação dos paranaenses, diante de reclamações sobre tarifas, atendimento e qualidade dos serviços. Agora, o grupo político que conduziu essa operação trabalha pela eleição de Flávio Bolsonaro, representante de uma família que sempre defendeu a redução da presença do Estado na economia.

Eduardo Pimentel escolheu seu lado. Rafael Greca tomou outra direção. E fez isso com um discurso de uma contundência que surpreende até quem acompanha sua trajetória política.

Ao falar sobre a eleição presidencial, Greca questionou a submissão do Brasil aos interesses dos Estados Unidos e a exploração das riquezas nacionais. Perguntou qual ideologia justificaria calar o país para atender aos interesses de quem deseja nossas terras raras.

Em seguida, reivindicou sua ligação com a tradição brizolista, evocou Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira e a defesa da educação pública. Falou sobre a necessidade de preservar a cultura brasileira, as universidades, os museus e o financiamento público das artes.

E foi explícito ao mencionar Lula: “Se houver um Lula, não está meio dando no gasto, mas pelo menos ele tem a reta intenção de servir aos pobres e de manter a Lei Rouanet.”

A frase é reveladora. Greca não virou petista, não abandonou suas convicções conservadoras e tampouco deixou de ter restrições a Lula. Mas reconhece no atual presidente uma disposição de servir aos pobres e preservar conquistas civilizatórias que considera ameaçadas pelo bolsonarismo.

“Não posso me calar, porque se eu me calasse, as pedras falariam”, declarou, ao justificar seu posicionamento.

E foi ainda mais duro ao falar dos adversários: “Eles não querem a música, eles não querem o financiamento da cultura, eles não querem museus, eles não querem universidades, eles não querem escolas públicas.”

É uma manifestação política de enorme significado, especialmente por partir de alguém que governou Curitiba por três mandatos e jamais pertenceu à esquerda.

Greca tem uma trajetória conservadora, marcada por contradições e decisões discutíveis. Mas é um político de formação sólida, repertório cultural e experiência administrativa. Pode-se discordar de suas posições, mas seria injusto ignorar sua capacidade política.

Basta lembrar a pandemia. Enquanto Jair Bolsonaro promovia o negacionismo, atacava as vacinas e desestimulava medidas de proteção, Curitiba, sob a administração de Greca e com Márcia Huçulak à frente da Secretaria Municipal da Saúde, adotava medidas de enfrentamento à Covid-19. A gestão municipal teve falhas e enfrentou críticas, mas sua postura contrastava com a irresponsabilidade do então presidente da República.

Agora, diante da possibilidade de um Bolsonaro voltar à Presidência, Greca reconhece o que está em jogo. E faz isso sem esconder suas ressalvas a Lula, algo que, aliás, confere ainda mais peso à manifestação.

Eduardo Pimentel, por sua vez, prefere o alinhamento com Ratinho Junior, com Flávio Bolsonaro e com a República do Master.

E pensar que esse homem quase perdeu a eleição municipal de 2024. Precisou da popularidade de Greca, da estrutura política do governador e dos votos progressistas que recebeu no segundo turno. Agora, dá as costas a esses eleitores sem o menor constrangimento.

Há uma ironia considerável nessa história. O político conservador que fez de Eduardo Pimentel seu sucessor demonstra maior disposição de defender a soberania nacional, a cultura, a educação pública e os interesses dos pobres do que o próprio afilhado, que precisou de uma parcela expressiva do eleitorado de esquerda para chegar ao cargo.

Greca, que não tem obrigação alguma de concordar com Lula, demonstra compreender a gravidade desta eleição. Eduardo, que tanto deve aos eleitores progressistas, parece não ter aprendido sequer a lição da própria vitória.

Talvez imagine que seu apoio a Flávio Bolsonaro lhe renda dividendos políticos, alguma recompensa futura ou uma posição privilegiada no grupo de Ratinho Junior. Pode até render. A política está cheia de carreiras construídas dessa maneira.

Mas Eduardo Pimentel sai muito menor desta eleição. Menor diante dos eleitores que o ajudaram a vencer, menor diante da história recente de Curitiba e, sobretudo, diante do homem que o levou à prefeitura.

A criatura deve quase tudo ao criador. Infelizmente, parece ter herdado muito pouco de sua inteligência política.

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