Vale do Ribeira: o reduto de Lula que resiste ao bolsonarismo no Paraná

Adrianópolis - 2014 - Foto: José Fernando Ogura/AEN

Em um Paraná onde Flávio Bolsonaro (PL) recebeu quase 60% dos votos no primeiro turno da eleição presidencial de 2026, três municípios do Vale do Ribeira contrariaram a tendência estadual e deram vitória ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Adrianópolis, Itaperuçu e Cerro Azul, integrantes de uma das regiões historicamente mais pobres do estado, estão entre as poucas localidades da Região Metropolitana de Curitiba em que o petista superou o candidato bolsonarista.

O resultado mais expressivo ocorreu em Adrianópolis, onde Lula conquistou 52,96% dos votos válidos, contra 41,09% de Flávio Bolsonaro. Foram 2.225 votos para o presidente e 1.726 para seu adversário, uma vantagem de 499 votos. O desempenho colocou Adrianópolis entre os dez municípios paranaenses com maior votação proporcional para Lula, quase 22 pontos percentuais acima da média estadual de 31,2%.

Em Itaperuçu, Lula também venceu, com 49,8% dos votos, contra 42,8% de Flávio. Já em Cerro Azul, a disputa foi decidida por apenas quatro votos: 4.665 para o petista e 4.661 para o candidato do PL.

A força eleitoral de Lula no Vale do Ribeira tem antecedentes importantes. Em 2022, quando Jair Bolsonaro disputou a reeleição, o petista venceu em seis dos sete municípios da região, perdendo apenas em Bocaiúva do Sul. Naquela eleição, chegou a 61,10% dos votos em Adrianópolis, 59,53% em Itaperuçu e 55,26% em Cerro Azul.

Embora a votação de Lula tenha diminuído em 2026, acompanhando o avanço bolsonarista em parte do interior paranaense, a região continua apresentando índices de apoio ao presidente significativamente superiores aos registrados no conjunto do estado.

Uma região marcada pela pobreza e pela agricultura familiar

O Vale do Ribeira paranaense é formado pelos municípios de Adrianópolis, Bocaiúva do Sul, Cerro Azul, Doutor Ulysses, Itaperuçu, Rio Branco do Sul e Tunas do Paraná. Apesar da proximidade geográfica com Curitiba, a região convive historicamente com baixos indicadores de desenvolvimento humano, dificuldades de infraestrutura, concentração de pobreza rural e problemas de regularização fundiária.

A agricultura familiar desempenha papel importante na economia regional, ao lado da mineração, da produção florestal e de outras atividades rurais. O território também reúne comunidades tradicionais e quilombolas, cujas demandas por terra, serviços públicos e condições de produção integram a história das políticas de desenvolvimento regional.

Foi nesse contexto que o primeiro governo Lula, iniciado em 2003, passou a implementar políticas federais voltadas especificamente aos territórios rurais mais pobres do país.

Uma das primeiras iniciativas foi o Programa Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Territórios Rurais (Pronat), lançado em 2003 pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário. O programa tinha como objetivos ampliar a infraestrutura, fortalecer a agricultura familiar e organizar estratégias de desenvolvimento com participação de representantes das comunidades locais.

O Vale do Ribeira paranaense passou a integrar essas políticas territoriais, que posteriormente seriam ampliadas pelo programa Territórios da Cidadania.

Territórios da Cidadania: investimentos federais no Vale do Ribeira

Em fevereiro de 2008, Lula lançou o programa Territórios da Cidadania, destinado a concentrar ações do governo federal nas regiões brasileiras com menores indicadores sociais e econômicos.

O Vale do Ribeira foi incluído entre os 60 territórios selecionados inicialmente. Para os sete municípios paranaenses, o governo federal previu investimentos de R$ 40,4 milhões somente em 2008.

Os recursos anunciados contemplavam iniciativas de infraestrutura, educação, saúde, saneamento, acesso à água, regularização fundiária, desenvolvimento rural e apoio às atividades produtivas.

A proposta era articular políticas executadas por diferentes ministérios, com participação dos governos estaduais, prefeituras e organizações da sociedade civil. Em vez de tratar isoladamente problemas como a falta de estradas, a baixa renda dos agricultores e as dificuldades de acesso aos serviços públicos, o programa procurava organizar uma estratégia territorial de desenvolvimento.

Em agosto de 2008, representantes do governo federal, do governo paranaense, de prefeituras e de instituições públicas participaram de reuniões em Tunas do Paraná para discutir as ações previstas para a região.

Outro investimento foi anunciado em junho daquele ano, quando o Ministério do Desenvolvimento Agrário firmou parceria com o governo estadual para a regularização fundiária nos territórios do Vale do Ribeira e Cantuquiriguaçu. O convênio previa R$ 1,8 milhão para atender agricultores familiares dos 27 municípios abrangidos pelas duas regiões, sendo R$ 1 milhão de recursos federais.

A regularização das propriedades era considerada fundamental para permitir que agricultores sem documentação adequada pudessem acessar crédito rural, assistência técnica e programas de incentivo à produção.

O legado dessas iniciativas foi estudado por pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Em trabalho publicado em 2011, a pesquisadora Paula Chagas Francis Leal analisou a implantação do Pronat no Vale do Ribeira e identificou avanços na organização territorial, mas também limitações importantes na capacidade de promover desenvolvimento econômico e social duradouro.

Ainda assim, os programas representaram uma intervenção federal direcionada a municípios que historicamente recebiam pouca atenção das políticas de desenvolvimento.

Bolsa Família e presença do governo federal

Além dos investimentos territoriais, os programas de transferência de renda constituem outra dimensão importante da presença federal no Vale do Ribeira.

Em Adrianópolis, por exemplo, o Plano Municipal de Saúde registra que, em março de 2024, o Bolsa Família atendia 541 famílias, alcançando 1.562 pessoas. O benefício médio era de R$ 671,71, com transferência mensal de aproximadamente R$ 363 mil à economia do município.

Em localidades de pequeno porte e com elevada presença de famílias de baixa renda, recursos dessa natureza têm importância direta para o consumo, a segurança alimentar e a movimentação do comércio local.

O apoio à agricultura familiar também esteve entre as prioridades dos governos petistas, por meio de instrumentos como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), criado em 2003 e retomado no atual governo Lula.

Essas políticas oferecem instrumentos de financiamento e comercialização para pequenos produtores, embora o alcance específico de cada programa nos municípios do Vale do Ribeira tenha variado ao longo dos anos.

Uma resistência eleitoral que enfrenta dificuldades

A relação entre os investimentos federais e a preferência eleitoral por Lula é uma hipótese relevante para compreender o comportamento político do Vale do Ribeira, mas não explica, isoladamente, os resultados das urnas.

A presença da agricultura familiar, as condições socioeconômicas, a atuação de lideranças locais e a organização política das comunidades também precisam ser consideradas.

Os próprios números mostram que a influência petista sofreu desgaste. Entre 2022 e 2026, Lula passou de 61,10% para 52,96% em Adrianópolis. Em Cerro Azul, sua vantagem sobre o bolsonarismo caiu para apenas quatro votos. Doutor Ulysses, Rio Branco do Sul e Tunas do Paraná, que haviam votado majoritariamente no petista em 2022, deram vitória a Flávio Bolsonaro neste ano.

Mesmo assim, Adrianópolis permanece como um dos principais redutos de Lula no Paraná, enquanto Itaperuçu e Cerro Azul resistem à predominância eleitoral da direita na Região Metropolitana de Curitiba.

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