Camilo Santana e Rafael Fonteles ganham força para novo governo e sucessão de Lula

A campanha que reelegeu Luiz Inácio Lula da Silva mal terminou, mas as movimentações para a formação do novo governo já começaram em Brasília. Dois nomes que ganharam protagonismo na reta final da disputa aparecem agora entre os mais cotados para ocupar algumas das posições mais importantes do Executivo: Camilo Santana (PT-CE) e Rafael Fonteles (PT-PI).

Camilo, ex-ministro da Educação e senador pelo Ceará, ganhou força para assumir a Casa Civil, responsável pela coordenação política e administrativa do governo e uma das pastas mais importantes do Palácio do Planalto. Fonteles, reeleito governador do Piauí, é citado para comandar o Ministério da Fazenda.

Nenhuma das duas escolhas está definida. Mas a ascensão de Camilo e Fonteles vai além da montagem do governo que começa em 2027. Os dois também ganharam espaço numa discussão que inevitavelmente acompanhará o quarto mandato de Lula: quem será o candidato do campo governista à Presidência em 2030?

Pelas regras atuais, Lula não poderá disputar uma nova reeleição consecutiva. Diferentemente do que ocorreu em 2022 e 2026, portanto, o PT precisará construir outro nome. E a tendência é que essa sucessão comece a ser preparada com antecedência, como ocorreu com Dilma Rousseff antes da eleição de 2010.

Camilo e Fonteles despontam justamente por reunir características que hoje interessam ao partido. São políticos de uma geração mais nova, têm experiência administrativa, governaram estados do Nordeste e ganharam projeção nacional durante a reta final da campanha que reelegeu Lula.

Segundo turno mudou o tabuleiro

A força dos dois cresceu principalmente depois do primeiro turno, quando Lula terminou atrás de Flávio Bolsonaro e promoveu mudanças na condução da campanha.

Camilo passou a ter papel central na reorganização política, enquanto Fonteles ganhou espaço especialmente nas discussões sobre estratégia e comunicação. A reação da campanha no segundo turno aumentou o capital político dos dois dentro do PT e junto ao próprio presidente.

A participação de ambos na virada passou a ser vista como credencial para posições de destaque no novo governo. Também reforçou uma leitura interna de que o partido precisa produzir novas lideranças nacionais enquanto Lula ainda está no Palácio do Planalto.

A eventual ida de Camilo para a Casa Civil teria exatamente esse efeito. A pasta coloca seu titular no cotidiano das decisões presidenciais, na coordenação dos ministérios e na articulação das principais ações do governo. Seria uma vitrine nacional para um político que já tem enorme influência no Ceará, mas ainda precisa ampliar seu conhecimento junto ao eleitorado de outras regiões.

O mesmo vale para Fonteles na Fazenda.

Fonteles pode deixar o Piauí pela Fazenda

Rafael Fonteles chega fortalecido depois de conquistar a reeleição no Piauí e aparece entre os nomes avaliados para assumir o comando da economia.

A escolha exigiria uma decisão política importante: deixar o governo estadual pouco depois de conquistar um novo mandato. A presença de um vice também petista, porém, reduziria os custos políticos da saída.

Fonteles tem um perfil incomum entre os principais quadros do partido. Matemático de formação, foi secretário da Fazenda do Piauí antes de chegar ao governo e construiu interlocução com setores empresariais e do mercado financeiro sem perder a identidade partidária.

Sua chegada ao Ministério da Fazenda representaria ainda uma aposta geracional. Aos 41 anos, Fonteles ganharia uma das maiores vitrines políticas do país e passaria a ser avaliado diariamente por temas como crescimento econômico, emprego, inflação, investimentos e política fiscal.

Para quem olha para 2030, dificilmente haveria posição mais estratégica.

Fonteles, porém, não é o único nome considerado para a Fazenda. Outros quadros do governo também aparecem nas conversas, e a decisão dependerá do desenho mais amplo que Lula pretende dar ao novo ministério.

Camilo no centro do governo

Camilo Santana aparece, por sua vez, como um dos nomes mais fortes para a Casa Civil.

Ex-governador do Ceará por dois mandatos, senador e ministro da Educação no terceiro governo Lula, Camilo deixou o MEC para disputar o Senado em 2026 e participou diretamente da campanha presidencial.

Sua força política também foi demonstrada no Ceará, onde o grupo que lidera manteve o controle do governo estadual.

A Casa Civil colocaria Camilo numa posição semelhante à ocupada por figuras que ganharam projeção presidencial dentro de governos anteriores. Dilma Rousseff, por exemplo, passou pelo Ministério de Minas e Energia antes de assumir a Casa Civil e, a partir dali, foi gradualmente apresentada por Lula como sua sucessora.

Não significa que Lula já tenha escolhido Camilo — ou qualquer outro nome — para 2030. Mas ocupar a Casa Civil durante quatro anos inevitavelmente o colocaria entre os políticos mais expostos e influentes do governo.

Gleisi continua no jogo

Gleisi Hoffmann também permanece no jogo. Ela foi para o sacrifício na disputa pelo Senado no Paraná, numa eleição que já se sabia difícil, mas continua sendo lembrada nas discussões sobre a sucessão de Lula.

Ex-presidente nacional do PT, ex-ministra da Casa Civil e das Relações Institucionais e uma das dirigentes mais próximas do presidente, Gleisi já vinha sendo citada dentro do partido entre os nomes que poderiam disputar esse espaço.

A derrota no Paraná pesa menos quando observada dentro da estratégia política que levou sua candidatura ao Senado. Gleisi entrou numa disputa particularmente difícil para o PT num estado em que a direita mantém forte vantagem eleitoral e assumiu uma candidatura considerada importante para a composição da chapa estadual.

Sua trajetória dentro do partido e a relação de confiança construída com Lula continuam sendo ativos relevantes.

Gleisi também é cotada para retornar ao primeiro escalão do governo. Uma nova passagem pela Esplanada poderia mantê-la no centro das decisões durante os quatro anos que antecederão a eleição de 2030.

Ela reúne uma característica diferente de Camilo e Fonteles: enquanto os dois representam renovação geracional, Gleisi possui experiência acumulada no comando partidário, no Congresso e no núcleo político de governos petistas.

Haddad perdeu força, mas não saiu da disputa

Fernando Haddad também continua no tabuleiro, embora chegue ao pós-eleição mais enfraquecido.

Ex-ministro da Educação, ex-prefeito de São Paulo, candidato à Presidência em 2018 e ministro da Fazenda no terceiro governo Lula, Haddad continua sendo um dos quadros nacionais mais conhecidos do PT e mantém relação próxima com o presidente.

Pesa contra ele, porém, o histórico recente de derrotas eleitorais. Haddad perdeu a eleição presidencial de 2018, a disputa pelo governo de São Paulo em 2022 e novamente não conseguiu chegar ao Palácio dos Bandeirantes em 2026.

O desempenho alimenta dentro do partido a discussão sobre a necessidade de apresentar em 2030 um nome capaz de representar uma renovação política depois de Lula.

Antes do primeiro turno, Haddad chegou a ser citado como uma possibilidade para a Casa Civil. O crescimento de Camilo Santana durante a reta final da campanha, porém, alterou essa correlação.

Ainda assim, seria prematuro retirá-lo da sucessão. Haddad tem projeção nacional, experiência de governo e permanece entre as figuras de maior confiança de Lula.

Boulos, Tebet e Alckmin

A sucessão também não precisa necessariamente sair dos quadros do PT.

Guilherme Boulos é um dos nomes com potencial para crescer ao longo do próximo governo. Sua força entre jovens, movimentos sociais e setores urbanos da esquerda lhe garante uma base política própria e diferente daquela dos principais nomes petistas.

Simone Tebet também permanece como uma possibilidade dentro do campo que se formou em torno de Lula. Sua presença no governo desde 2023 ampliou sua interlocução com setores da centro-direita e consolidou uma relação política com o presidente.

Já Geraldo Alckmin tem a vantagem de ocupar a Vice-Presidência, possuir experiência administrativa e manter bom trânsito no empresariado e em setores de centro. A idade, porém, pesa. Ele chegará a 2030 com 77 anos, num momento em que a sucessão de Lula provavelmente será apresentada também como uma renovação de geração.

Até lá, muita coisa pode mudar.

O que já começa a ficar claro é que o quarto governo Lula não será apenas um mandato de continuidade. Também será o período em que o campo político construído em torno do presidente precisará enfrentar uma questão adiada durante anos pela própria centralidade de Lula.

Em 2030, será preciso apresentar outro nome.

Camilo Santana e Rafael Fonteles saíram da eleição de 2026 maiores do que entraram e aparecem hoje entre os quadros em maior ascensão. Gleisi Hoffmann e Fernando Haddad continuam na disputa dentro do PT. Boulos, Tebet e Alckmin ampliam as possibilidades fora da legenda.

A montagem do novo ministério poderá ser o primeiro sinal de como Lula pretende organizar essa sucessão — e de quem receberá, nos próximos quatro anos, as melhores posições para tentar herdá-la.

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