Fuga covarde de Flávio começou na Argentina e passou pelo Equador

A fuga de Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil começou na noite de terça-feira, 27 de outubro, pela fronteira com a Argentina. O senador, derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno presidencial, cruzou com três familiares a Ponte Internacional Tancredo Neves, entre Foz do Iguaçu e Puerto Iguazú, às 22h50, segundo a Direção Nacional de Migrações argentina.

Cerca de 40 minutos depois, às 23h30 do dia 27, Flávio e os familiares embarcaram em um jato privado operado pela empresa Baires Fly. O destino informado no plano de voo era Guayaquil, no Equador.

Já na madrugada desta quarta-feira, 28 de outubro, a aeronave pousou em Guayaquil às 5h46, no horário de Brasília. Às 6h22, decolou novamente, desta vez com destino a Miami, nos Estados Unidos. O trajeto não passou pelo espaço aéreo brasileiro e sobrevoou Paraguai, Bolívia e Peru.

A movimentação ocorreu depois de Flávio descumprir o prazo para entregar seus passaportes à Polícia Federal. O STF havia determinado a apreensão dos documentos e proibido o senador de deixar o Brasil. Moraes também determinou o cancelamento dos passaportes brasileiros e exigiu a entrega do passaporte italiano obtido pelo senador em 2023.

Na segunda-feira (26), um dia antes de cruzar a fronteira, Flávio havia afirmado publicamente que não pretendia deixar o país e que continuaria atuando na oposição.

A Polícia Federal já havia apontado ao Supremo a existência de riscos “concretos e atuais” de fuga. Entre os elementos citados estavam uma declaração de Eduardo Bolsonaro aconselhando o irmão a deixar o Brasil em caso de derrota eleitoral, o poder econômico do senador e a existência de estruturas no exterior que poderiam permitir sua permanência fora do país.

Investigações por bets, Willer Tomaz e Banco Master

A saída do país ocorre enquanto Flávio Bolsonaro é alvo de dois inquéritos no Supremo Tribunal Federal, ambos envolvendo suspeitas de crimes financeiros.

Em um deles, a Polícia Federal investiga a relação de Flávio com o advogado Willer Tomaz e apura se o senador seria sócio oculto de uma estrutura empresarial ligada ao setor de apostas online.

A investigação encontrou Flávio cadastrado como “usuário master” da conta bancária da Alcazar Holdings, empresa de Willer registrada na Ilha da Madeira. Segundo a PF, esse nível de acesso permitiria amplo controle das operações da conta. A exclusão de Flávio só teria sido solicitada em maio de 2025. Para os investigadores, o conjunto de elementos sustenta a hipótese de uma participação econômica ou societária de fato do senador.

A Alcazar aparece conectada à Cathedral Holding, controladora da Rede Loto, grupo responsável pela BestBet, casa de apostas licenciada no Rio de Janeiro. A PF investiga especificamente se Flávio atuava como sócio oculto da bet.

A investigação também encontrou viagens internacionais de Flávio e familiares pagas por empresa ligada a Willer. Dados obtidos pela PF mostram ainda reuniões, festas, viagens e relações financeiras entre os dois. Flávio sustenta que sua relação com Willer é apenas de amizade e nega irregularidades. Willer também nega ilegalidades em seus negócios.

Foi justamente nesse inquérito que Alexandre de Moraes determinou que Flávio entregasse os passaportes, não deixasse o Brasil e não mantivesse contato com Willer.

Banco Master e os R$ 134 milhões

Flávio também é formalmente investigado no inquérito que apura o financiamento de “Dark Horse”, projeto de filme sobre Jair Bolsonaro.

A Polícia Federal apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas envolvendo negociações entre Flávio e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.

Mensagens e áudios obtidos pelos investigadores mostram Flávio negociando com Vorcaro um aporte de US$ 24 milhões, equivalente a cerca de R$ 134 milhões na época, para financiar a produção.

Segundo informações reunidas na investigação, ao menos R$ 61 milhões teriam efetivamente sido repassados em seis operações em 2025, e parte dos recursos teria seguido para um fundo no Texas ligado a aliados da família Bolsonaro. A PF apura ainda se parte desse dinheiro foi usada para bancar despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

Flávio também teria emitido cerca de R$ 1,5 milhão em notas fiscais para empresas ligadas a Vorcaro, segundo documentos da investigação.

Antes da divulgação dos áudios, o senador negava relação de Vorcaro com o financiamento do filme. Depois, admitiu ter procurado o banqueiro, argumentando que buscava um investidor privado para a produção. Nas mensagens, Flávio e Vorcaro se tratavam como “irmão”.

O inquérito sobre o filme é relatado pelo ministro André Mendonça, indicado ao STF por Jair Bolsonaro.

Histórico de outras investigações

As apurações atuais se somam a outros casos que marcaram a trajetória política de Flávio Bolsonaro.

Quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, ele foi investigado e posteriormente denunciado por suspeitas de “rachadinha” em seu gabinete, com Fabrício Queiroz apontado pelo Ministério Público como operador do esquema. Flávio chegou a ser denunciado por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

As provas utilizadas na investigação foram posteriormente anuladas pelo STJ e pelo STF por questões processuais, e o caso acabou arquivado sem julgamento do mérito das acusações.

As investigações também envolveram suspeitas de lavagem de dinheiro por meio de operações imobiliárias e da loja de chocolates da qual Flávio era sócio. Esses episódios não resultaram em condenação criminal do senador.

Agora, ao deixar o Brasil, Flávio permanece formalmente investigado nos casos envolvendo Willer Tomaz e o setor de apostas e no inquérito sobre Banco Master, Daniel Vorcaro e o financiamento de “Dark Horse”.

O Departamento de Estado dos Estados Unidos informou que concederia vistos a Flávio e seus familiares. O presidente norte-americano Donald Trump afirmou nesta quarta-feira (28) que aprova a ida do senador para o país e voltou a questionar, sem apresentar provas, o resultado da eleição brasileira.

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