Nem mesmo os eleitores mais radicalizados de Flávio Bolsonaro (PL) demonstraram apoio à decisão do senador de se autoproclamar presidente eleito após a derrota para Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A atitude foi considerada ridícula por participantes de pesquisas qualitativas conduzidas pela cientista política Esther Solano, cujos resultados foram divulgados nesta quinta-feira (5) pela Folha de S.Paulo.
Os levantamentos identificaram uma contradição entre a postura do candidato derrotado e as expectativas de parte de seus próprios eleitores. Embora persistam suspeitas de fraude entre os bolsonaristas mais radicais, os participantes dos grupos manifestaram disposição para aceitar o resultado e aguardar a próxima eleição presidencial.
Segundo Solano, expressões como “vida que segue” e “bola pra frente” apareceram repetidamente nas conversas. A avaliação identificada pela pesquisadora é de que não faz sentido Flávio insistir em tentar modificar o resultado das urnas.
Lula foi reeleito em 25 de outubro, com uma vantagem superior a 4,4 milhões de votos sobre Flávio Bolsonaro. Apesar do resultado, o senador questionou o processo eleitoral e, já nos Estados Unidos, chegou a se apresentar como “verdadeiro presidente eleito”, expressão posteriormente retirada de uma manifestação pública.
A reação também se estendeu à saída do senador para os Estados Unidos. Parte dos entrevistados interpreta as medidas judiciais determinadas contra Flávio como perseguição política, mas admite a possibilidade de que ele tenha responsabilidade em fatos sob investigação. Entre os participantes menos radicalizados, houve críticas à decisão de deixar o país, em vez de permanecer no Brasil e reconhecer a derrota.
Outro ponto de insatisfação foi a manutenção da remuneração parlamentar enquanto Flávio permanece no exterior. O senador continua no exercício de seu mandato até janeiro de 2027, com salário mensal de R$ 46.366,19.
“Apareceu muito forte a ideia de que se ele quer receber o salário, vai ter que vir aqui, vai ter que dar as caras, vai ter que trabalhar”, relatou Solano à Folha.
Os grupos também revelaram diferenças na interpretação da derrota. Os eleitores menos radicalizados atribuíram o resultado, entre outros fatores, ao desempenho de Flávio no último debate e à condução da campanha no segundo turno. Já os mais radicais mantiveram desconfianças sobre a ampliação do horário de votação.
Parte dos participantes desconhecia que o próprio PL também havia solicitado a prorrogação e que os votos registrados depois do horário habitual de encerramento eram insuficientes para modificar o resultado. Quando receberam essas informações, alguns dos eleitores menos radicalizados passaram a questionar as acusações de fraude.
Por se tratar de uma pesquisa qualitativa, os resultados não permitem estimar quantos eleitores de Flávio compartilham dessas posições. A reportagem da Folha também não informa o número de participantes nem a quantidade de grupos consultados. Ainda assim, os relatos mostram que a insistência na contestação eleitoral encontra resistência inclusive entre apoiadores do candidato derrotado.